Leite de pedra como alimento

julho 8th, 2010

© 2010 jotafagner.net

Quando li em diversos jornais sobre o lançamento do álbum Duetos em comemoração aos 50 anos de nascimento do Renato (Manfredini Júnior) Russo, pensei: estão querendo tirar leite de pedra.A história é sempre a mesma, regravações das músicas mais populares (aquelas que já cansaram), sobras de estúdio (quase sempre de qualidade duvidosa), mixagem que criam duetos que nunca existiram. Por esses motivos, o lançamento deste “novo” álbum não me chamou a atenção.

Leite_de_pedra_como_alimento

O amigo leitor que talvez tenha, assim como eu, uma pequena que também goste de fazer compras, sabe que a mudança de estação é um bom motivo para visitar o centro comercial.

- Mas, meu amor, por que eu tenho que comprar roupas para o inverno? Têm um monte de agasalhos lá em casa.

- Não acredito que você vai me fazer passar vergonha desfilando por aí com aquelas roupas do inverno passado!?

Como a última palavra é sempre minha, respondi do alto da minha autoridade:

Sim, querida!

Lá estava eu percorrendo as inúmeras lojas em busca do agasalho mais confortável quando me encontrei no setor de CDs e DVDs. Dei de cara com o bendito álbum.Talvez por um simples impulso de colecionismo, resolvi levar o disco e acabei gostando de algumas coisas.

Like a lover

Confesso que não conhecia essa canção, mas a versão mixada em que Renato divide os vocais com a Fernanda Takai agradou muito aos meus ouvidos. Tive a mesma sensação de quando ouvi pela primeira vez o Stonewall. A música tem uma suavidade e uma maturidade que há muito eu não ouvia.

Celeste (Soul Parsifal)

Bem, qualquer um que me conheça sabe o quanto eu amo a versão dessa música que está na Tempestade. Na verdade, essa é a minha música favorita. Não estou falando das músicas do Legião, mas de todas as músicas que já ouvi no mundo, essa é a minha favorita.Ouvir a versão original que foi gravada numa fita cassete na casa da Marisa Monte, foi um choque pra mim. A evolução da letra é nítida, Renato substituiu frases como: “vê que a minha força é santa” por algo mais sóbrio: “vê que a minha força é quase santa”.É a música que eu ouço toda manhã enquanto me arrumo pra sair.

Vento no Litoral

Escutar Cássia Eller em “parceria” com o Renato foi algo muito bom. Só fiquei triste porque ninguém pensou em criar algo semelhante com a canção 1° de julho.

Na seqüência temos a prova de que eu não estava tão errado: as canções Mais uma vez com 14 Bis, A Carta com Erasmo Carlos, A Cruz e a espada com Paulo Ricardo e Cathedral Song com Zélia Duncan são as mesmas versões contidas no Renato Russo Presente.


Change Partners

Juro que nunca imaginei ser possível unir Renato Russo e Caetano Veloso numa canção, mas o resultado foi fantástico.
É a mesma sensação de reestruturação de foco que sentimos após nos recuperarmos de uma desilusão afetiva.
Mais que recomendada.

Strani Amori

Nunca gostei da Laura Pausini e Strani Amori sempre me soou como uma canção brega, feita para adolescentes apaixonados. No entanto, gostei muito dessa versão. De todas as canções do disco é a que mais se parece com um dueto. A música continua sendo um clichê, brega como sempre, mas confesso que gostei.

La Solitudine

Essa não tem jeito. Mesmo com os arranjos vocais da Leila Pinheiro (que ficaram muito bonitos) continuo achando a canção muito brega. Tenho que estar muito bem humorado para conseguir ouvi-la.

Come fa un’ onda

Talvez seja porque eu goste muito da versão do Equilíbrio distante, mas essa versão com a Célia Porto não me agradou muito. Está bem feita, ficou bonita, mas eu achei que perdeu a serenidade.

Só Louco

Com a qualidade do áudio não muito boa, essa é uma das pérolas do disco. Dorival Caymmi e Renato Russo, quando que eu imaginaria algo assim? Ficou de uma beleza que só escutando para se entender.

Esquadros

Um casamento perfeito entre as vozes da Adriana Calcanhoto e do Manfredini. A canção é uma daquelas que nos dá uma pequena pitada de angustia, mas uma angustia gostosa que te tira do conforto do comodismo te dá certa insatisfação. Pena que o áudio não está muito bom.

Nada por mim

Uma versão mais que conhecida em que o Herbert Vianna apresenta o Russo ao público antes da música começar. Nem deveria ser considerada um dueto já que o Herbert não canta.

Summertime

A música imortalizada na voz da Janis Joplin é aqui apresentada numa versão ao vivo em que o Renato canta com a Cida Moreira. Muito boa para quem curte um blues, mas o áudio também não está dos melhores.

Mas, e o amigo leitor? Ouviu? Gostou? Não Gostou? Concorda em algo comigo? Discorda de tudo? Deixe um comentário falando sobre a sua experiência.

e o VI FLUMINIS?

janeiro 3rd, 2010

  Muitos comentários sobre o termo Ipiaú, muitos E-mails e até discussões em outros blogs e sites. Entre todas essas provocações vejo uma em especial do meu amigo Adenivaldo Brito, que apesar de estar cursando letras – salvo engano – é um autodidata em latim.

Ele argumenta que “O “Entre rios” citado no texto, é na verdade a tradução do termo em latim “VI FLUMINIS” expresso no brasão da cidade.” É verdade, o termo até pode ser traduzido livremente como entre rios, mas numa tradução mais literal – todos com os dicionários de latim na mão, por favor! – temos algo levemente distinto:

A palavra FLVMINIS[1] (no latim arcaico não existia a letra “U” e em seu lugar era usada a letra “V” como em “CORNVTA CALVIVS EST ao invés de CORNUTA CALVIUS EST (era careca e chifrudo)”) realmente deve ser traduzido como rio, mas o termo VI – todos com os dicionários? –é o ablativo de “vis”, que significa “força”. Vi, então, pode significar “pela força”. No caso, “pela força do rio”. 

O amigo Adenivaldo só propôs a já citada tradução livre[2] porque não gosta da sonoridade de “O rio das piabas”, ele acha cacofônico. Quanto à confusão dos termos, ele está completamente certo, alguém cometeu o erro e os outros foram repetindo.

Muito obrigado a todos que escreveram – inclusive o amigo Adenivaldo que em algum idioma desconhecido deveria se chamar Abigobaldo — contribuindo de uma forma ou de outra. Participem sempre e até a próxima.


[1]  O alfabeto latino primitivo era composto de 21 letras, ou seja, era quase o mesmo alfabeto do português atual, excluindo-se o J, o U e o Z, mas incluindo-se o K. As letras I e V tinham valores ora de consoante, ora de vogal, conforme o contexto fônico do vocábulo. Por exemplo, o I e o V tinham valor de consoante quando vinham precedendo uma vogal, em qualquer posição na palavra. Nos demais casos, tinham valor de vogal. Daí encontrarem-se expressões do tipo: SVB VMBRA ALARVM TVARVM ou invés de SUB UMBRA ALARUM TUARUM. (Sob a sombra de tuas asas). Mais tarde, lá pelo século XVI, foram incorporados à escrita latina também os sinais J e V, certamente por influência das próprias línguas neolatinas, então já existentes. Este assunto, no entanto, não é ponto pacífico entre os gramáticos.

[2] O amigo Adenivaldo Brito certamente já conhecia a tradução literal, sua citação foi apenas para aludir ao erro inicial que gerou todos os outros.

fonte: www.jotafagner.net
www.futuca.net

O termo Ipiaú

janeiro 3rd, 2010

Estive conversando recentemente com a Cláudia – bibliotecária do Museu do Café aqui da cidade de Santos – sobre o empobrecimento da língua, sobre reforma ortográfica, sobre mentiras que se perpetuam Ad infinitum, e da participação dos jornalistas nisso tudo.
Lembrei-me de que eu mesmo já repassei algumas idéias tolas que costumava ouvir constantemente, mas tão constante e tão intensamente que em alguns momentos se confundiam com a verdade.

Exemplo disso é o nome da minha cidade. Ipiaú já foi traduzido algumas vezes como “Dois Rios” outras como “Rio Novo”. Confesso que eu mesmo já repeti esses engodos algumas vezes.

Mas, é bom que se lembre que as tribos que habitavam a região antes do processo de ocupação eram conhecidas como tapuias. Já expliquei aqui anteriormente que tapuia era um nome genérico dado àqueles que não pertenciam ao tronco lingüístico tupi-guarani. O fato de a cidade ser batizada com um nome vindo exatamente do tupi-guarani é no mínimo um mal entendido.
De qualquer forma fica a pergunta: O que significa Ipiaú? Bem, a palavra é na verdade a junção de duas outras: I + piahu. A primeira palavra pode ser traduzida como água, pequeno, fino, delgado ou magro. Tomando alguns exemplos conhecidos, temos: Iara (deusa das águas), itararé (pedra esculpida pelas águas) e tantos outros.
A segunda palavra é simplesmente a grafia antiga de piaú ou piau como ficou popularmente conhecido, em tupi significa pele manchada, era um nome dado a um espécime de peixe de água doce mais conhecido como piaba.
A palavra Ipiaú, portanto, pode ser traduzida como Rio dos piaus ou Rio das piabas.
Não ficou convencido? Tomemos então outro exemplo: a palavra que dá nome ao estado do Piauí (piahu + I): Rio de piaus[1].
Abraço, e até a próxima!


[1] Para o popular brasileiro o adjetivo Piauí pode ser também um tipo de gado bovino de pequeno porte e dotado de cornos desenvolvidos, no entanto, este termo foi cunhado por causa do gado que era criado na região do Piauí, visto que esta é uma região pecuarista.

fonte: www.jotafagner.net
www.futuca.net

MINHA QUIMICA

dezembro 31st, 2009

Ia eu contar-lhes o resto da história da minha avó, quando alguém trouxe à baila a estranha resistência vital ou os sete fôlegos dos gatos, e, desviado por essa consideração, fui parar no Colégio Estadual de Ipiaú, em 1991 o 1992. Trocara as estrelas pelos átomos, e a minha paixão, uma paixão espanhola, debruçou-se sobre a química.

No princípio não era bom aluno na matéria por me faltar o livro… e o quantitativo, como hoje se diz no Ministério da Educação. Numa tarde que suponho dourada e outonal, para colorir a lembrança, abri-me com um colega mais velho que já estava no terceiro ano, livre das retortas. Ele teve um gesto largo e magnânimo: “Eu te empresto o meu…” (Esqueci-me o nome do autor que naquele tempo era clássico). No dia seguinte o colega, rapaz meticuloso, que tinha um defeito na perna e falava fanhoso, trouxe-me os dois volumes: mas daí por diante, sempre que cruzava comigo, fazia um gesto paternal, feliz, e saudava:

— Como vais, químico?

A paixão, como costuma aparecer, veio de repente. Até certo ponto eu estudava com aquela disposição morna de todo aluno meio-termo que quer passar nos exames. De repente entrevi uma caverna mais espaçosa e mais maravilhosa que a de Ali Babá, mas não me lembro qual foi o elemento, ou a reação que representou o papel fulminante. O caso é que de certo dia em diante eu sonhava com tubos de ensaio e acordava fazendo projetos de ter um laboratório em casa. Aos poucos fui comprando balões, tubos, lamparinas e as preciosas substâncias que deveriam depois, diante de meus olhos fascinados, dar dimensões de realidade ao que o livro abstratamente prometida. Grande coisa! Grande coisa esse exercício que consiste em debruçarmo-nos sobre o que as coisas são, e em decifrarmos os seus segredos!

Mas deixemos para outra pauta as reflexões filosóficas e ouçamos o que a memória nos diz em sua linguagem modesta.

Montei um pequeno laboratório no quarto dos fundos lá de casa, e comecei a ser objeto de intensa curiosidade. Na hora do recreio todos os alunos vinham ver os precipitados coloridos dos sais de cobalto e de cromo, ou vinham assistir, estupefatos, à decomposição da água por um processo eletrolítico que eu improvisara. Ganhei fama. Uma fama de duzentos metros de raio. Mas acontece que nesse círculo exíguo estava incluída a casa de duas mocinhas itabunenses, muito belas, que possuíam um gato de estimação.

Precisava, para maior clareza, abrir um parêntese de cem páginas a fim de explicar

Cada cabeça um mundo

dezembro 31st, 2009

 

velha

Uma tarde, na Rua do Ouvidor, uma velha caiu na minha frente. Ouvi o ruído surdo e impróprio duma rótula batendo no chão. Ajudei-a, vexado; ela levantou-se gemendo e olhando em volta com espanto: “Vejam só, tinha caído!” A rua toda pareceu-me subitamente parada e o tempo vencido por aquele encontro. Eu existia, eu era, com o testemunho da velha que me segurava no braço; entre nós se estabelecera um pacto que entraria pela eternidade. Mas a impressão foi logo destruída e a eternidade gastou-se em poucos segundos. O movimento da rua começou e a velha dobrou a esquina. Levava o seu segredo e o depoimento do meu; guardaria alguns dias uma mancha roxa no joelho; explicaria às filhas e às netas, com abundantes preceitos, como tinha caído, e na história confusa da velha eu estaria associado como um cavalheiro magro e vestido de brim. E quando a velha morresse levaria o último vestígio daquela cena desbotada; e depois ninguém mais saberia que naquela tarde nós dois nos tínhamos encontrado, eu e a velha.

A volta do idiota

dezembro 28th, 2009


Há dez anos surgiu o Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, no qual Plinio Apuleyo Mendoza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Vargas Llosa arremetiam com tanto humor quanto ferocidade contra os lugares-comuns, o dogmatismo ideológico e a cegueira política por trás do atraso da América Latina. O livro, que golpeava sem misericórdia, mas com sólidos argumentos e provas efetivas, a incapacidade quase genética da direita obstinada e da esquerda boba de aceitar uma evidência histórica – a de que o verdadeiro progresso é indissociável de uma aliança indestrutível entre duas liberdades, a política e a econômica, ou, em outras palavras, entre democracia e mercado -, teve um sucesso inesperado. Além de atingir um vasto público, provocou saudáveis polêmicas e as diatribes inevitáveis num continente ‘idiotizado’ pela pregação ideológica terceiro-mundista, em todas as suas aberrantes variações, do nacionalismo, do estatismo e do populismo até – como não – o ódio aos Estados Unidos e ao ‘neoliberalismo’.
 

Uma década depois, os três autores voltam a sacar das espadas e investir contra os exércitos de ‘idiotas’ que ultimamente, de um extremo a outro do continente latino-americano, em vez de diminuir, parecem reproduzir-se com a rapidez dos coelhos e baratas, animais de fecundidade proverbial. O humor está sempre presente, assim como a pugnacidade e a defesa em alto e bom som, sem o menor complexo de inferioridade, dessas idéias liberais que, nas atuais circunstâncias, parecem particularmente impopulares no referido continente. 

Mas é realmente assim? As melhores páginas de El Regreso del Idiota dedicam-se a demarcar as fronteiras entre o que os autores do livro chamam de ‘esquerda vegetariana’, com a qual quase simpatizam, e ‘esquerda carnívora’, que detestam. A primeira é representada pelos socialistas chilenos – Ricardo Lagos e Michelle Bachelet -, pelo brasileiro Lula da Silva, pelo uruguaio Tabaré Vásquez, pelo peruano Alan García e aparentemente – quem diria! – pelo nicaragüense Ortega, que agora abraça e comunga freqüentemente com seu velho arquiinimigo, o cardeal Obando y Bravo. Esta esquerda já deixou de ser socialista na prática e é hoje a mais firme defensora do capitalismo – mercados livres e empresa privada -, embora seus líderes, em seus discursos, ainda rendam homenagem à velha retórica e, da boca para fora, reverenciem Fidel Castro e o comandante Chávez. Esta esquerda parece ter entendido que as velhas receitas do socialismo jurássico – ditadura política e economia estatizada – só continuariam afundando seus países no atraso e na miséria. E felizmente resignou-se à democracia e ao mercado. 

Já a ‘esquerda carnívora’, que há alguns anos parecia uma antiqualha em vias de extinção que não sobreviveria ao mais longevo ditador da história da América Latina – Fidel Castro -, renasceu das cinzas com o ‘idiota’ que é a estrela do livro, o comandante Hugo Chávez. Num capítulo muito proveitoso, os autores radiografam Chávez em seu entorno privado e público, com suas desmesuras e palhaçadas, seu delírio messiânico e seu anacronismo, assim como a astuta estratégia totalitária que governa sua política. Discípulo e instrumento de Chávez, o boliviano Evo Morales representa, dentro da ‘esquerda carnívora’, a subespécie ‘indigenista’, que, pretendendo subverter cinco séculos de racismo ‘branco’, prega um racismo quíchua e aimará – idiotice que, embora careça totalmente de solvência conceitual em países como Bolívia, Peru, Equador, Guatemala e México, pois em todas essas sociedades o grosso da população já é mestiça e tanto os índios quanto os brancos ‘puros’ são minorias, causa grande furor entre os ‘idiotas’ europeus e americanos, sempre sensíveis a qualquer estereótipo relacionado à América Latina. Embora na ‘esquerda carnívora’ por enquanto figurem, de modo inequívoco, três trogloditas – Fidel, Chávez e Morales -, El Regreso del Idiota analisa com sutileza o caso do estreante presidente Correa, do Equador, tecnocrata grandiloqüente que poderá engordar suas fileiras. Os personagens inclassificáveis da lista são o presidente argentino Kirchner e sua bela esposa (e talvez sucessora), a senadora Cristina Fernández, mestres do camaleonismo político, pois podem passar de ‘vegetarianos’ a ‘carnívoros’ e vice-versa em questão de dias ou mesmo horas, embaralhando todos os esquemas racionais possíveis (como fez o peronismo ao longo de sua história).

Uma novidade em El Regreso del Idiota em relação ao livro anterior é que agora o fenômeno da idiotice é examinado pelos autores não só na América Latina, mas também nos Estados Unidos e na Europa, onde, como demonstram estas páginas com exemplos que às vezes produzem gargalhadas, às vezes lágrimas, a idiotice ideológica também é representada por encarnações robustas e epônimas. Os exemplos foram bem escolhidos: a lista é encabeçada pelo inefável Ignacio Ramonet, diretor de Le Monde Diplomatique, tribuna insuperável de toda a espécie no velho continente, e autor do mais dócil e servil livro sobre Fidel Castro – façanha difícil, diga-se de passagem! Ramonet tem a companhia de Noam Chomsky, caso flagrante de esquizofrenia intelectual, que é inspirado e até genial quando limita-se à lingüística transformacional e um ‘idiota’ irredimível quando desata a falar de política. A Mãe Pátria espanhola é representada pelo dramaturgo Alfonso Sastre e suas toscas distinções entre o terrorismo bom e o terrorismo ruim; e os prêmios Nobel, por Harold Pinter, autor de densos dramas experimentais raramente inteligíveis, ao alcance apenas de públicos arquiburgueses e exóticos, e demagogo inapresentável quando vocifera contra a cultura democrática.

No último capítulo, El Regreso del Idiota propõe uma pequena biblioteca para que as pessoas se desidiotizem e alcancem a lucidez política. A seleção é bastante heterogênea, pois inclui desde clássicos do pensamento liberal, como O Caminho da Servidão, de Hayek, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, de Popper, e A Ação Humana, de Von Mises, até romances como O Zero e o Infinito, de Koestler, e os grandes volumes narrativos de Ayn Rand A Nascente e Quem é John Galt? (a meu ver, teria sido preferível incluir qualquer um dos ensaios ou panfletos de Ayn Rand, cujo individualismo incandescente superava o liberalismo e beirava o anarquismo, em vez de seus romances, que, como toda literatura edificante e de propaganda, são ilegíveis). Por outro lado, não há nada a declarar contra a presença de Gary Becker, Jean François Revel, Milton Friedman e Carlos Rangel, o único autor de língua hispânica da seleção, cujo fantasma deve sofrer o indizível com o que acontece em sua terra, uma Venezuela que ele já não reconheceria. 

Apesar do bom humor, da insolência revigorante e da atitude positiva dos autores diante dos ventos ruins que correm pela América Latina, é impossível não perceber, nas páginas deste livro, um ar de desmoralização. Não é por menos. Pois o certo é que, apesar dos casos de modernização bem-sucedida assinalados – o já conhecido do Chile e o promissor de El Salvador, sobre o qual o livro oferece dados muito interessantes, assim como os triunfos eleitorais de Álvaro Uribe na Colômbia, Alan García no Peru e Felipe Calderón no México, que foram claras derrotas para o ‘idiota’ em questão -, o certo é que, em boa parte da América Latina, há um claro retrocesso da democracia liberal e um retorno do populismo, inclusive em sua variante mais cavernal: a do estatismo e do coletivismo comunistas.

Esta é a angustiante conclusão implícita neste livro febril e combativo: na América Latina, pelo menos, existe uma certa forma de idiotice ideológica que parece irredutível. Pode-se derrotá-la em batalhas, mas não na guerra, porque, como a hidra mitológica, ela reproduz seus tentáculos de novo e de novo, imunizada contra os ensinamentos e desmentidos da História, cega, surda e impermeável a tudo que não seja sua própria escuridão.

 

Quem ignora o que o público diz em mídias sociais não pode ser jornalista’

dezembro 28th, 2009

Ana Brambilla é minha dupla colega: é jornalista e professora de jornalismo. Mestre em Comunicação, acaba de assumir como editora de mídias sociais do portal Terra. Um desafio e tanto.

E é exatamente sobre mídia social (e jornalismo cidadão, assunto no qual Ana é uma referência) que versa meu bate-papo com ela (via e-mail), o primeiro da série “3 Perguntas Para” que aparecerão com frequência no Webmanario.

Na conversa, ela alerta sobre a importância de o jornalismo profissional estar atento ao que diz e produz e público. E faz uma defesa incondicional do jornalismo cidadão.

Já faz algum tempo que estou fascinado com o fenômeno lan house de periferia e a inclusão digital da população brasileira (NOTA: esta entrevista se deu antes que o IBGE divulgasse que as lan houses só perdem para as residências no acesso à web no Brasil). Já somos o povo que mais tempo passa na web, e nessa faixa social (classes C e D), o avanço na internet é imenso. Sinal de que a rede é um gênero de primeira necessidade ou de que faltam mais opções de entretenimento (notadamente as bancadas pelo poder público)? Até que ponto ficar muito tempo na web é sinal de avanço de um povo?

O tempo on-line, quantitativamente falando, não me parece suficiente para estimar o avanço intelectual de um povo – a menos que essa “intelectualidade” seja reduzida ao “saber mexer” com a tecnologia. É necessário entender, antes, O QUE esse povo anda fazendo on-line, qual o tipo de informação tem acessado, produzido, processado.

Qualquer um que já tenha entrado em uma lan house sabe que o uso de Orkut e MSN é soberano. Considerando que são plataformas de relacionamento e que em termos de contato humano, convivência é um dos traços mais característicos da brasilidade, estas plataformas digitais só vêm intensificar este cimento social de que o brasileiro tanto gosta. Ou seja: se ainda há dúvidas sobre a tecnologia aproximar ou afastar as pessoas, o uso intenso das mídias sociais pelos brasileiros mostra que a aproximação ainda prepondera.

Mas não fiquemos apenas no relacionamento. Há quem use o conhecimento da rede para aprender. Lembro de um vídeo bacana feito pela Regina Casé que mostra as lan houses da periferia e, nele, um rapaz conta que aprendeu a consertar bicicletas em tutoriais publicados no YouTube. Desde então, vem ganhando dinheiro com isso. A web estimula o autodidatismo. E para quem tem vontade de aprender mas não tem grana para investir em cursos, as lan houses podem ser boas salas de aula 

O jornalismo profissional tende a considerar a mídia social uma falácia. Pouco importa o que as pessoas falam ou deixam de falar. O que perde um jornalista por profissão que ignora de própria vontade o que se diz em plataformas de publicação pessoal? Como a mídia social pode ser incorporada no dia a dia de quem trabalha com notícias?
Quem ignora o que o público diz em mídias sociais já devia ignorar o que este mesmo público dizia nas ruas. Ou seja: não pode ser jornalista. Afinal, a razão de existir do jornalismo é GENTE. O público é fonte, o público é (ou deveria ser) a finalidade do nosso trabalho. E se ele – ou o que ele pensa, diz – é ignorado por quem estás nas redações, melhor faz se desprezar o trabalho do jornalista.

Aliás, isso me faz pensar porque os sites noticiosos não estão entre os mais acessados na web. Será que o público se vê neles? Ora, a internet é o lugar onde o público, finalmente, pode se ver. Se o jornalismo praticado no meio digital for igualmente burocrático e limitado às fontes oficiais tal como grande parte dos veículos tradicionais, está fadado a ser engolido por sites de entretenimento ou mesmo pelas redes sociais nos relatórios de audiência. Como não estamos muito distantes disso, alguns veículos estão se dando conta de que devem estar presentes também nas mídias sociais.

E este é um despertar histórico. Afinal, será preciso quebrar paradigmas de linguagem jornalística, de critérios de noticiabilidade, ou seja, conceitos seculares da profissão que mexem nos brios de quem se diz mestre na “arte” de transformar a realidade em notícia. Enquanto empresas de comunicação de vários países contratam seus editores de mídia social, há quem esteja vendo neste novo colega uma oportunidade de expandir a visibilidade de seu próprio trabalho, há quem esteja temendo por novas obrigações em troca do mesmo salário.

Não agradar a todos é natural, J.C. provou disso (não, não me referi a Jornalismo Colaborativo, embora ele também não tenha agradado a todo mundo).

Mas a minha visão da equação jornalismo + mídias sociais é de total interdependência. Jornalista que não souber/quiser/gostar de incorporar as mídias sociais no seu trabalho, não terá lugar no mercado.

Em relação a como as mídias sociais podem ser incorporadas no dia a dia de quem trabalha com notícia, creio em 3 vertentes:

- apuração (busca por fontes, personagens, pautas, testemunhos, opiniões);
- veiculação (linguagem adequada às mídias sociais, grupos e momentos certos para divulgação de determinadas notícias);
- feedback/relacionamento (é muita informação espontânea e barata – na verdade, de graça! Por que não aproveitar para MELHORAR o meu trabalho? E por que não trazer esse aliado para MAIS PERTO da minha rotina profissional?).

Você acompanhou bem de perto a trajetória do Ohmynews, projeto que podemos considerar modelo em jornalismo participativo. E sabe que eu tenho várias restrições a ele (a principal, o adestramento de cidadãos para que se comportem como repórteres, quando a improvisação e desconhecimento de vícios e liturgia da profissão me parecem mais adequados à tarefa). Outro dia o Paulo Querido, jornalista português, disse que o jornalismo cidadão “dá uma notícia por ano”. Eu também tenho aquela sensação e que a noção de notícia de quem colabora com sites jornalísticos é do tipo meu-cachorro-fez-xixi-no- poste. De Gillmor a Querido, passando pelo Ohmynews (que estaria moribundo financeiramente, não?), você também não se decepciona com a qualidade da colaboração na nossa área? Que projetos colaborativos você referendaria hoje como modelos a serem observados? E o Ohmynews, que destino você enxerga pra ele?

E quem disse que o meu-cachorro-fez-xixi-no-poste não pode ser importante? Há um problema enorme nos noticiários colaborativos ancorados pela grande mídia, que pretendem aplicar os mesmos critérios de noticiabilidade para as reuniões de pauta da redação E para o conteúdo que o público manda. Isso reflete o vício do jornalista achar que sabe o que “é importante” para a sociedade, que ele sabe o que o público deve saber. Será? A propósito, o que é “importante” para alguém? Me parece um conceito tão individual que o jornalismo pasteurizou com uma arrogância absurda nos últimos 200 anos. Afinal, o que É importante está no noticiário. Mas importante para que, cara-pálida?

Se os critérios de relevância editorial forem os mesmos para o jornalismo tradicional e para o jornalismo colaborativo, então Paulo Querido tem razão: o público deve dar uma notícia por ano. Só que o erro vem antes disso. Vem na proposta editorial que estes noticiários trazem ao público. Eles querem cópias de si mesmos só que feitas pelas mãos dos outros. E isso é impossível! O público não estudou para isso. O público NÃO RECEBE para isso. Por que vai fazer um trabalho igual ou melhor do que o de um jornalista? O público fala daquilo que interessa a ele, à microssociedade dele. E isso vai do 1º dia do filho na escola até a sujeira na praça ao lado da casa dele. Por isso que o jornalismo colaborativo é quase sinônimo de jornalismo hiperlocal. E aí chegamos num dos pontos que, talvez, tenham jogado contra a trajetória do OhmyNews.

Este noticiário sul-coreano nasceu em âmbito nacional. Para os menos de 50 milhões de habitantes, o OhmyNews dava conta. Mostrava uma realidade que não aparecia nos jornais tradicionais, até mesmo por um vínculo forte que estes mantinham com o poder público, fruto de uma redemocratização tardia, além dos malditos kisha clubs, tradição segregacionista que mina a imprensa do oriente e limita o acesso a determinadas informações das grandes esferas sociais apenas aos veículos maiores, bancados por elas. Eis que o OhmyNews encontrou um nicho e cresceu. Cresceu tanto que não coube mais só na Coreia.

Espalhou a ideia pelo mundo. Foi copiado. Criticado, Ovacionado. Mas se já é difícil fazer um noticiário de cobertura nacional, o que sobra para um noticiário global? Na contramão do jornalismo hiperlocal, o OhmyNews Internacional (versão em inglês) não recebeu grandes investimentos, tem uma infraestrutura tímida e atualização lenta. Ainda assim, segue vivo, dando espaço para muitos cidadãos repórteres do mundo inteiro. Aliás, não conheço outro espaço jornalístico tão cosmopolita.

Para que o OhmyNews tenha futuro, é preciso haver uma mudança no modelo de negócio. Virar uma ONG ou experimentar o modelo de crowdfounding são algumas possibilidades. Vejo que o papel social deles é suficiente para justificar uma dessas duas alternativas. Assim, quero observar de perto o Spot.Us, Ushaidi e o Witness, projetos de crowdfounding ou crowdsourcing que podem nos ensinar modelos interessantes – tanto editoriais quanto financeiros.

 

A diferença entre ser e simplesmente parecer

dezembro 7th, 2009

Nossa história

J. Fagner

Mais um aniversário da cidade e eu, ponho-me a pensar sobre a falta de maturidade que esta ainda aponta. Não falo de imaturidade física, pois essa os ipiaúenses alegam ter alcançado depois da mineradora – não que eu tenha me impressionado com o que vi em recente visita – mas, falo da maturidade de ordem comportamental.

Muitos são os que atribuem – seguindo as idéias de Weber – uma hostilidade visceral do catolicismo às idéias liberais e apontam aí a causa da estagnação intelectual da minha querida cidade. Isso, quando não jogam a culpa no sistema capitalista e todas as suas mazelas. Clichês marxistas à parte, posso dizer que apesar de cada um desses fatores realmente existir, mesmo a soma de todos eles não basta para justificar tal situação.

Temos a mania de julgar questões comportamentais que são tipicamente brasileiras – em alguns casos tipicamente baianas – pelos moldes pré-estabelecidos que recebemos de outros contextos, outras civilizações. Mas, o fato é que esses esquemas pré-fabricados nem de longe servem para explicar a nossa realidade. É necessário um estudo mais profundo do nosso cabedal imaginativo, dos nossos conceitos e valores.

Cabe aqui uma pergunta: Quais são as metas, os símbolos ou mesmo os ideais de felicidade perseguidos pelos ipiaúenses de forma geral?

Não é preciso pesquisa muito profunda para que se constate que as ambições do nosso povo sempre foram as mais mirradas e medíocres se comparado com outras cidades. De todos os nossos conterrâneos apenas alguns se aventuravam em ambicionar projetos pessoais que estavam para além de sua realidade, os outros, se acomodavam em conhecer um ou outro desses indivíduos e basear toda a sua credibilidade e valor nesse deturpado processo de osmose.

A situação mostrada Capistrano de Abreu já ao final dos Capítulos de História Colonial deixavam claro que, mesmo após três séculos de ocupação territorial, uma população constituída maximamente de escravos e mestiços vivia ainda encolhida sob as asas de seus senhores e protetores, sem ao menos tentar algum projeto pessoal, por menor que fosse.

A segurança de um emprego público sempre contribuiu para a esperança de uma vida mais segura que, para uma população tímida como é a nossa, denotava sucesso alcançado.

Essa estagnação desconfortável de nosso povo reflete-se na insistência absurda dos produtores rurais em não abdicar da monocultura cacaueira mesmo depois da vassoura de bruxa, levando toda a região a se contrair. Enquanto isso acontecia, teimávamos em esconder nosso estado de regressão econômica com festividades patrocinadas por blocos carnavalescos que disseminavam arremedos de macaquices disfarçados em danças libidinosas.

A nossa estagnação econômica nunca foi uma causa sui, ela sempre foi a expressão de uma perspectiva diminuída, onde a suposta segurança de um cargo público se sobrepôs aos sonhos e possibilidades de vitória.

Tudo isso criou uma perspectiva bem diferente em fenômenos como as festas carnavalescas, incluindo aí a micareta ou qualquer festividade produzida pelos blocos. O principal fator deste momento festivo é que ele contribui, para que milhares de ipiaúenses consigam o cume anual de sua existência. Durante esse período o indivíduo se vê com a possibilidade de fugir de sua própria realidade. Ou em outras palavras: no momento de maior intensidade o indivíduo foge da sua vida real e se abriga numa fantasia evanescente para não dizer fugaz. Essa é a maior representação da nossa falta de ambição existencial.

A imitação sendo um fenômeno universalmente conhecido, o modo que se pratica em Ipiaú é um tanto dispare: enquanto em outras localidades as pessoas imitavam alguém porque tinham a esperança de tornar-se iguais a ela de algum modo, os ipiaúenses se contentam com a imitação enquanto tal, visando apenas ao sucesso da performance e não à aquisição das qualidades pessoais imitadas. Isto demonstra um fundo depressivo de rendição existencial: o povo que desistiu de ser contenta-se com parecer.

Episódio 1º A Violência

novembro 24th, 2009

O primeiro episódio do podcast produzido para Ipiaú. Ainda tá um tanto tosco pelo nervosismo, mas acho que podemos melhorar com a ajuda de todos vocês. Ouçam: Download.

CONVERSA DIRETA COM J.FAGNER- PROTÓTIPO DO PROJETO

novembro 15th, 2009